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Sem tabu não há transgressão e sem transgressão não há humor. Eis uma das coisas que, sem querer, o novo filme de Sacha Baron Cohen revela.
Sem tabu não há transgressão e sem transgressão não há humor. Eis uma das coisas que, sem querer, o novo filme de Sacha Baron Cohen revela.| Foto: Reprodução/ Amazon Prime

Quem rir de “Borat: Fita de Cinema Seguinte” talvez se engasgue com a pipoca e não perceba, mas o filme com o personagem mais famoso de Sacha Baron Cohen é, por trás de toda a irreverência pretensamente crítica e todo o humor sujo, uma celebração da tolerância que torna o convívio entre os diferentes possível. Por outro lado, a própria existência do filme revela o cansaço e o desalento da juventude. É o que pretendo argumentar neste texto.

Nesta sequência inferior, mas não muito, do megassucesso de 2006, o grande Бора́т Сагди́ев volta aos Estados Unidos com a missão de dar um presente ao vice-presidente Mike Pence: a própria filha de 15 anos, Tutar. A personagem revela ao mundo o talento para o humor escrachado (para quem gosta, claro) da búlgara Maria Bakalova, além de servir de escada para a ignorância machista de Borat.

No filme estão presentes todas as características que tornaram Sacha Baron Cohen e seu personagem tanto admiráveis quanto abomináveis, sobretudo o uso da escatologia e a manipulação de situações para reforçar o caráter cômico do que o ator vê como hipocrisia inata da “América profunda”, também chamada de “estadosunidozãodemeudeus”. Para Cohen, todas as características abjetas de Borat são uma versão exagerada das características abjetas da sociedade norte-americana.

Eu, pessoalmente, rio, porque rio de tudo e é bastante difícil me sentir ofendido com qualquer tipo de humor. Mas compreendo quem se ofenda com os “ataques” de Cohen/Borat. Ainda mais no clima político atual, que é bem diferente do de 2006. Naquela época, estava mais claro que o objetivo do comediante era o riso. Hoje em dia vemos maquinações políticas por toda parte.

Tolerância

À medida que o filme avançava, porém, comecei a perceber nos personagens vítimas do bullying cazaque algo que tinha passado despercebido também no primeiro filme: a extrema tolerância dos norte-americanos, mesmo os mais capiaus, às grosserias, à ignorância e à flagrante hostilidade de Borat. O que soa como aceitação e concordância não passa de um dar-de-ombros para os defeitos morais alheios, como se as pessoas criadas na defesa da liberdade própria e alheia soubessem que não devem se intrometer em nada.

Se há uma cura para a estupidez, ela não está na força de uma agressão física ou verbal. Há algo mais civilizado do que isso?

Imagino o que aconteceria a Sacha Baron Cohen se seu personagem entrasse numa confeitaria brasileira qualquer e pedisse que o bolo fosse decorado com algum texto explicitamente racista. Ou se tirasse sarro do estilo de vida de alguém na periferia. Ou ainda se ele destruísse um baile de debutante numa cidade do interior do Mato Grosso. E, no entanto, por mais falsas que possam ser as interações de Sacha Baron Cohen com as pessoas comuns em "Borat", o filme não mostra nenhum confronto.

A mentalidade de “o cliente tem sempre razão" ou do “não é da minha conta”, porém, tem lá seu lado perverso. Há certa permissibilidade repugnante no pastor que não chama a polícia ou o Conselho Tutelar ao se deparar com uma evidente relação de incesto. Há uma resignação meio triste no olhar do homem que vende uma jaula que ele sabe que o cliente pretende usar para prender a filha. E isso nos incomoda. Daí a graça - ou não-graça - do filme.

Desalento

Há, ainda, algo de desalentoso, por assim dizer, no novo Borat. Algo de cansado. A repetição do personagem, a repetição do humor, a repetição da linguagem, a repetição da transgressão, a repetição da repetição que o filme representa são como uma confissão de derrota de toda uma geração. Não há mais novidades realmente transgressoras, tanto esteticamente quanto no conteúdo. Vivemos de citar, recriar e copiar referências vazias de 15 anos atrás.

E como seria possível transgredir numa sociedade que não se choca com absolutamente nada? Daí porque "Borat 2", talvez sem querer, reforce a necessidade de termos valores sólidos e sustentarmos alguns tabus. Afinal, como podemos rir se não somos preconceituosos a ponto de achar o personagem ou a situação ridículos? Como podemos expressar o absurdo cômico quando não consideramos mais nada absurdo?

"Borat: Fita de Cinema Seguinte" também mostra que a politização de tudo cansa. E perde a graça. Fico imaginando como esse filme será visto daqui a dez, vinte anos. Serão necessárias notas de rodapé para que as próximas gerações compreendam algumas cenas – das quais provavelmente não rirão. O que mostra que esse tipo de comédia, assim como as gerações que o produzem e consomem, é refém do efêmero.

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