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Michelle Bolsonaro
Michelle Bolsonaro se afasta do perfil de ex-primeira dama e ataca governo e esquerdistas.| Foto: Zack Stencil/ PL Mulher

Em seu primeiro ano como ex-primeira dama, Michelle Bolsonaro, presidente do PL Mulher e a esposa do ex-presidente Jair Bolsonaro, angariou filiações em locais estratégicos para o Partido Liberal (PL), como a região Nordeste - reduto eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Apesar do desempenho dela, Bolsonaro e Valdemar Costa Neto, presidente nacional da sigla, negam que, diante da inelegibilidade do ex-presidente, a ex-primeira-dama seja a sucessora dele na corrida presidencial de 2026 e mantêm o futuro político de Michelle em aberto para evitar desgaste antes da hora.

Ao voltar para Brasília no início deste ano, de onde é natural, Michelle iniciou atividades partidárias para angariar filiações à legenda, que detém 99 parlamentares na Câmara dos Deputados. Nos bastidores, a aposta do partido focou em utilizar o carisma da ex-primeira-dama para aumentar a participação feminina e prepará-la para uma eventual eleição suplementar ao Senado.

A sigla estuda lançá-la para disputar pelo Distrito Federal, mas caso o senador Sergio Moro (União-PR) seja cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o nome de Michelle também é cotado para embarcar na disputa pelo Paraná. Em evento do PL Mulher em Curitiba, na capital do estado, em 16 de dezembro, ela foi saudada aos gritos de “senadora”.

O que explica a ascensão da ex-primeira dama?

Para aliados próximos, o trabalho social realizado por Michelle durante o mandato do marido turbinou sua imagem como figura política, como a inclusão de pessoas com visão monocular (cegueira de um olho) no BPC (Benefício de Prestação Continuada), pensão vitalícia para crianças com microcefalia e a criação de política para educação de surdos.

Além disso, políticos avaliam que a rejeição de Michelle é inferior à do próprio Bolsonaro. Por ser uma figura feminina, público que é apontado como mais alinhado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a ex-primeira dama tem o potencial de angariar votos das mulheres que não estão totalmente alinhadas ao atual presidente e que também não votariam em Bolsonaro.

Em outubro, o nome da ex-primeira-dama foi testado no Paraná, quando o instituto Paraná Pesquisas a indicou como favorita para uma vaga no Senado. Na época, Michelle apareceu à frente do ex-senador Alvaro Dias (Podemos), da presidente do PT, Gleisi Hoffmann (PT), e da deputada federal Rosângela Moro (União Brasil).

O desempenho surpreendeu analistas políticos, que viam no caso das joias sauditas um possível fator de desgaste para uma candidatura de Michelle. No entanto, uma pesquisa interna do PL divulgada pelo Blog do Noblat, do Metrópoles, mostrou que, se a eleição suplementar no Paraná fosse em dezembro, Michelle seria eleita com 40% dos votos válidos.

Outra pesquisa feita pelo Paraná Pesquisas, publicada no último dia 12, mostrou que a ex-primeira-dama aparece na frente de Lula, no estado de Goiás, em uma eventual disputa presidencial em 2026. Michelle aparece na pesquisa estimulada de intenção de voto com 21%, já Lula teria 19,9%. O governador Ronaldo Caiado é o preferido, com 37,8% dos votos.

Michelle disse que sonha com a presidência, mas Bolsonaro tem outros planos

Desde que o marido se tornou inelegível pelo TSE, Michelle tem declarado seu desejo de disputar a presidência da República. Em publicação no Instagram, em junho, ela compartilhou fotos em apoio a Bolsonaro e se disponibilizou para uma eventual candidatura. “Estou às suas ordens, meu capitão”, disse.

Já no mês de julho, em evento na Paraíba, Michelle voltou ao assunto declarando possuir o “desejo no coração de chegar à Presidência”. A declaração foi feita enquanto Michelle falava que, desde os 14 anos, “já fazia política pública sem saber” com trabalhos voluntários.

Apesar da aparente vontade dela, Bolsonaro tem se mostrado resistente à candidatura da esposa em uma chapa presidencial. Em um primeiro momento, o ex-mandatário até chegou a afirmar que sua esposa poderia se candidatar, alegando que Michelle é uma "excelente cabo eleitoral". No entanto, Bolsonaro salientou que ela não tem experiência para o cargo.

Em entrevista a uma rádio argentina, no dia 9 de dezembro, véspera da posse do presidente argentino, Javier Milei, Bolsonaro disse que o assunto não está em discussão. “Por enquanto não se discute esse assunto. Ela tem uma popularidade muito grande no Brasil, mas ela não é muito ligada às questões político-partidárias”, afirmou.

Nos bastidores, a leitura de aliados é que Bolsonaro deseja preservar a esposa da exposição de uma campanha presidencial, ao menos por ora. O caso das joias sauditas é visto como um ponto sensível para uma possível candidatura de Michelle ao Palácio do Planalto. Articuladores internos também avaliam que uma eventual disputa contra Lula e Ciro Gomes (PDT), personagens experientes em campanhas presidenciais, também poderia colocar a ex-primeira-dama em uma situação complicada.

Além desses fatores, também é avaliado que Bolsonaro deseja conservar espaços para agrupar nomes de peso em uma chapa formada pelo PL. Os governadores Romeu Zema (Novo), de Minas; e Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos), de São Paulo; e Radinho Júnior (PSD), do Paraná, são os favoritos para suceder Bolsonaro na disputa.

“Com certeza, a Michelle Bolsonaro está se projetando politicamente. Esse ano, para mim, ficou claro a tentativa de fazer ela assumir uma posição de protagonismo dentro do partido, que é o PL. Acho que ela pode ser uma opção, mas é preciso considerar outros nomes: como Zema e Tarcísio”, avalia o cientista político Adriano Cerqueira, do Ibmec.

Ex-primeira dama alfineta adversários e critica aliados

Indo na contramão do que fizeram outras ex-primeiras damas, além da atividade partidária, Michelle também vem ganhando espaço ao rebater adversários políticos, alfinetar desafetos e criticar aliados. O exemplo mais recente foi a aprovação de Flávio Dino como ministro do STF. Em evento do PL Mulher em dezembro, no Paraná, ela criticou a declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre ter um “comunista” no STF.

“Nós temos que orar sim, nós temos que clamar a Deus porque nós vimos o próprio líder, o próprio presidente falando, cheio de alegria, quase não conseguia falar, que o sonho dele de quase três décadas, aquele projeto que ele não descansou até realizar, se concretizou com um comunista dentro do STF […] Onde aconteceu a maior revolução sangrenta foi com um comunista, que perseguiu cristãos, não foi por falta de aviso”, declarou.

Além de Dino, Michelle criticou Moro por demonstrar simpatia ao então ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino, durante a sabatina na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado.

Em publicação no Instagram, ela comentou a conversa no WhatsApp entre Moro e um contato salvo na agenda do senador como “Mestrão”, em que Moro foi aconselhado a não revelar o voto na sabatina para o STF a fim de evitar críticas no futuro. "Não há nada escondido que não venha a ser descoberto, ou oculto que não venha a ser conhecido. Quem seria o ‘Mestrão?’", disse a ex-primeira-dama.

A própria indicação de Dino também foi alvo de críticas. Em evento realizado no Rio Grande do Norte, no último dia 2 de dezembro, ela disse que não existe comunista cristão" e que o ministro seria um "lobo em pele de cordeiro".

Os ataques de Gleisi Hoffmann, que acusou Michelle de “usar a fé para enganar as pessoas e se fazer politicamente”, também não passaram despercebidos pela ex-primeira dama. No X, antigo Twitter, Michelle publicou uma sequência de tuítes lembrando que a deputada estava na planilha de propina da Odebrecht. Na listagem, a presidente do PT era conhecida como “amante” e “coxa”.

“O que teria levado a pessoa conhecida como amante (codinome na lista da Odebrecht) a, gratuitamente, fazer ataques tão vorazes a mim e à minha fé? Seria inveja do sucesso do PL Mulher e o resultado das pesquisas no Paraná? Seria para desviar a atenção do povo para o fato de que o atual presidente e a 'viajanjante turistarão' mais uma vez nessa semana? Seria para tentar abafar a história da ‘Dama do Tráfico’ que teve livre trânsito nos ministérios desse desgoverno, confirmando os diálogos cabulosos? Ou seria para esconder das pessoas que Lula quer voltar a financiar obras no exterior com o dinheiro do povo, via BNDES? Seja qual for o motivo, não perderemos tempo jogando ‘xadrez com pombos’. Assassinar reputações com mentiras é a especialidade da extrema-esquerda. Nós não somos 'amantes' dessa estratégia”, escreveu Michelle na rede social X.

Foco de atuação de Michelle foi em redutos de Lula

Com a inelegibilidade de Bolsonaro, proclamada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em junho de 2023, Michelle vem sendo servindo ao PL como alternativa para captar novas filiações pelo país, com destaque para as regiões Norte e Nordeste. Só neste ano, ela já visitou Rondônia, Pernambuco, Paraíba (por duas vezes), Ceará, Pará e Rio Grande do Norte. O cumprimento de agendas conjuntas entre Bolsonaro e Michelle, como ocorreu em Belém, também é vista por aliados como uma forma do casal mostrar união em meio à indefinição sobre o sucessor do ex-presidente.

Em evento na Paraíba, Estado onde Lula venceu nas eleições 2022, Michelle buscou destacar os gastos do governo petista no exterior, as verbas publicitárias para a imprensa, a diminuição de mulheres em cargos de comando no Executivo e o corte de beneficiários do Bolsa Família. “As mulheres subiram a rampa, mas Lula bateu a porta na cara delas”, disse.

Na leitura do cientista político Elton Gomes, professor da Universidade Federal do Piauí (UFPI), a atuação de Michelle Bolsonaro visa diminuir a resistência do público feminimo com o partido.

“Acredito que o PL tenha feito uma segmentação e entendido que uma figura feminina de destaque poderia trazer benefícios do ponto de vista partidário para duas coisas: gerar novos filiados e mobilizar eleitoralmente um público que tradicionalmente vota com a esquerda. A falta de apoio desse público foi um grande problema que Bolsonaro teve e conseguiu resolver parcialmente, mas ainda existe uma resistência por setores muito mais vinculados ao lulopetismo”, disse Gomes.

Para o analista, o PL tenta espelhar em Michelle a possibilidade da mulher poder atuar politicamente no campo da direita.

“Penso o grande elemento estratégico do PL consiste essencialmente em criar uma espécie de oposto da imagem feminista ou feminina, do esquerdismo. O esquerdismo identifica as mulheres com uma série de valores próprios da crença progressista revolucionária. São valores antirreligiosos, valores identitários, são valores de confrontação”, afirmou o professor.

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