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Até mesmo o sofrimento de “perda de lugar” experimentado quando um irmão nasce é natural e serve como um preparo para a vida, diz psicóloga
Até mesmo o sofrimento de “perda de lugar” experimentado quando um irmão nasce é natural e serve como um preparo para a vida, diz psicóloga| Foto: Pixabay

Embora as famílias numerosas sejam cada vez mais comuns nos meios católicos e conservadores do Brasil, ter muitos filhos está longe de ser o comportamento familiar médio do brasileiro atualmente. A verdade é que o “filho único”, comum em países que adotaram políticas de restrição de natalidade, como a China, já é uma tendência por aqui. Uma progressiva queda na taxa de fecundidade, nas últimas décadas, colocou o país em um cenário semelhante ao de 60% da população mundial, em que os nascimentos não são suficientes para repor a população que morre: o dado mais recente aponta 1,65 filho por mulher brasileira (enquanto a taxa de reposição da população seria, pelo menos, 2,1 filhos por mulher).

Se nos anos 1960, portanto, o normal era uma brasileira ter seis filhos, e duas décadas mais tarde, quatro, hoje o mais comum é que uma criança seja criada sem a presença de irmãos. Os impactos disso são primeiramente sociais: “o Brasil é um país que envelheceu antes de enriquecer, esse é um grande desafio”, resume Rodolfo Canônico, especialista em Políticas Públicas para a Família pela Universidade Internacional da Catalunha e fundador e diretor-executivo da ONG Family Talks, que apoia o fortalecimento das famílias em favor do desenvolvimento social. Isso porque, com menos nascimentos e as pessoas vivendo potencialmente mais, em 2050 um em cada quatro brasileiros deverá ser idoso, segundo projeções, o que aponta para um alto custo social de cuidar dessa população.

Mas o impacto do filho único está longe de ser apenas demográfico e econômico. Há mais de um século (desde um estudo desenvolvido em 1896 por E.W. Bohannon, da Universidade Clark, em Massachusetts), crianças sem irmãos são descritas como mais mimadas e menos preparadas para a vida. A concepção, aceita durante décadas, passou a ser questionada por estudos mais recentes, que garantem que a diferença entre ter ou não irmãos é menos relevante para o desenvolvimento da criança que fatores como o relacionamento dos pais e o status socioeconômico da família.

Na Grã-Bretanha, testes cognitivos aplicados a crianças com dez ou 11 anos de idade, nascidas em 1946, 1958, 1970 e 2001, apontaram pontuações semelhantes entre quem era filho único e quem tinha um irmão, além de vantagem dos filhos únicos sobre quem tinha dois ou mais irmãos, na maioria dos anos analisados. Apenas em 2001, os indivíduos sem irmãos não se destacaram no teste. Para os pesquisadores, o achado reforça a tese de que o contexto familiar conta mais do que ter ou não irmãos. Isso porque “ao longo do tempo, ser filho único tornou-se mais associado a condições potencialmente desfavoráveis, como crescer com pais separados”.

Amabilidade e resistência a frustração

Um estudo realizado na China, em 2016, descobriu, por meio de ressonâncias magnéticas cerebrais, que os filhos únicos tendem a ter menor agradabilidade – um traço de personalidade expresso em comportamentos como ser amável, simpático, cooperativo, caloroso e atencioso – do que pessoas criadas com irmãos. Em compensação, eles seriam mais flexíveis do ponto de vista cognitivo, o que está ligado à dimensão da criatividade.

Do ponto de vista do desenvolvimento infantil, estudos afirmam de tudo, até que ter um cachorro (ou outro pet qualquer) é mais vantajoso do que ter um irmão. "O fato de animais não poderem entender ou responder pode ser um benefício", afirma o psiquiatra Matt Cassells, da Universidade de Cambridge.

Quem trabalha no dia a dia com o acompanhamento de pessoas, no entanto, afirma: ter irmãos faz toda a diferença no desenvolvimento do indivíduo. “Irmãos ensinam a ter resistência a frustração, mostram que competir nem sempre adianta, porque enquanto o mais velho corre ainda estou engatinhando, trazem sentimento de pertença e ajudam na confiança”, resume a psicóloga Roseana Barone Marx, logoterapeuta e doutora em psicologia clínica, cujo trabalho tem ênfase no vazio existencial.

Ela explica que mesmo o sofrimento de “perda de lugar” experimentado quando um irmão nasce é natural e serve como um preparo para a vida. “Claro que traz sofrimento, mas isso é superado quando percebo que minha mãe e meu pai me amam de um jeito único. Sempre recordo a história real de uma amiga que tinha 11 filhos. Num dia, na hora do almoço, ela foi chamá-los, porque estavam jogando bola em frente a sua casa, e um deles havia sido atropelado. Ele morreu na hora em seus braços, e ela nunca mais se recuperou. Aí eu pergunto: por que, se ela ainda tinha dez? Porque ninguém é substituído no amor”, afirma.

"Não é que é pior criar um filho único", pondera Canônico, "porque é possível criar os mesmos problemas na educação de mais de uma criança. Agora, existem benefícios de se ter irmãos", afirma.

Relacionamentos duradouros

Para a maior parte das pessoas, os relacionamentos mais duradouros da vida são estabelecidos com os irmãos. “Os pais não ficam com você a vida toda, seus parceiros românticos vêm e vão (e você só os conhece mais tarde na vida), os amigos vêm e vão, mas os irmãos estão sempre presentes ao longo da vida”, diz a pesquisadora Susan McHale, da Universidade Estadual da Pensilvânia, que estuda relacionamentos entre irmãos.

Também é no relacionamento com um irmão que se estabelecem as bases práticas para todos os demais ao longo da vida. Nesse sentido, relacionamentos positivos entre irmãos tendem a ser protetores e levar a melhores relacionamentos sociais na adolescência. Ainda de acordo com McHale, se relacionar de maneira próxima com irmãos traz impactos positivos na saúde mental, enquanto ter conflitos nesse contexto aumenta riscos de depressão, ansiedade e comportamento antissocial.

E quando os pais tratam um filho melhor que o outro? Mesmo nisso, os irmãos podem ser a cura, “reconhecendo que isso está acontecendo e como é injusto”, diz McHale. E em situações com uma boa explicação para o tratamento diferenciado, como quando o irmão realmente tem uma necessidade especial, a criança é capaz de compreender. “Eles podem proteger um ao outro, desde que ambos entendam o que está acontecendo, que isso seja reconhecido e a criança favorecida possa apoiar a criança menos favorecida para ajudar a compensar o comportamento dos pais”, afirma.

Mesmo na vida adulta ou na velhice, o relacionamento entre irmãos continua trazendo benefícios e auxiliando em problemas, segundo a pesquisadora. “Pela história compartilhada, os irmãos entendem você como ninguém mais consegue. Rotinas e rituais familiares, memórias, a forma como as coisas funcionam em sua família, as pequenas piadas e entendimentos privados – você simplesmente não tem isso com outras pessoas, nem mesmo com um cônjuge de longa data”, explica.

Tendência populacional

Rodolfo Canônico explica que o último Censo já apontava para uma correlação entre maior escolarização e menor taxa de fecundidade (tendência que tem se revertido em países mais ricos, com mulheres de rendas mais altas voltando a ter filhos). Por aqui, ele acrescenta, ter um filho apenas já é tendência entre famílias de renda mais alta.

Recentemente, a cantora Sandy – que ganhou fama ainda muito pequena ao lado do irmão Júnior – declarou que acha “todo mundo [que tem mais de um filho] louco”. "Acho que deveria? Acho. Seria bom um companheirinho para o meu filho? Seria. Culpa? Temos. Mas não quero outro filho. Porque quero ser a melhor mãe que eu consigo para o meu filho. Eu já me cobro demais por não estar mais disponível. Imagina ter dois? Não dou conta. Ser mãe é assim. Eternamente a gente fica nessa coisa de se cobrar, amar, se doar e achar que está sempre se doando pouco", declarou.

Esse conflito entre “o mundo do trabalho e a maternidade” impacta nas escolhas referentes à fecundidade e ao planejamento familiar, “levando as mulheres a postergar a decisão de ter filhos ou de ter menos filhos ao longo do tempo”, afirma Canônico. “No Brasil, a tendência é cada vez mais diminuir as famílias.”

Com isso, o cuidado do núcleo familiar deve ficar cada vez mais difícil no país. Antes, ele acrescenta, quando uma mãe de seis perdia sua autonomia e demandava cuidados na velhice, os filhos poderiam se revezar na tarefa. “No novo contexto, as famílias pequenas terão menos condições de cuidar dos idosos. Por outro lado, há menos jovens em idade economicamente ativa gerando renda para garantir o cuidado desses idosos por meio da previdência social, que já demanda metade dos gastos da União atualmente, e da saúde pública. É uma mudança social radical”, completa Canônico.

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